A ESCRITA DE UMA MEMÓRIA 'ANTI-RITUAL'
Graciela Ortiz - Univ. N. Rosario/Argentina
Os romances A casca da serpente do escritor brasileiro José Veiga e La revolución es un sueño eterno[1] do escritor argentino Andrés Rivera compartilham uma característica: em ambos, o personagem principal pertence à História, Antônio Conselheiro no primerio caso e Juan José Castelli no segundo.
O discurso histórico se volta para o passado e segundo sejam os jogos do poder, isto é, quem são os vencedores – diz uma canção em espanhol “La historia la escriben los que ganan” – ele reconstrói os fatos acontecidos, elaborando um texto que se institui como aquele da Historia oficial.
Nessa perspectiva, os heróis que figuram no panteão nacional, aparecem como sem máculas, não compartilhando quase nenhuma das fraquezas dos humanos. Eles são sacralizados e venerados segundo as práticas e os rituais da História.
O Conselheiro e Castelli não pertencem ao bando dos vencedores, bem pelo contrário, são os vencidos dentro da História. Os escritores Veiga e Rivera se apropriam desses personagens perdedores e apresentam dois relatos que vão dizer em clave de ficção, o que o discurso histórico não disse.
Imagino que neste espaço em que estou falando não preciso fazer introdução nenhuma sobre quem foi Antônio Conselheiro. Quanto a Juan José Castelli só algumas palavras para situá-lo no cenário histórico-político. Em 1810 se produz a Revolução de Maio em Buenos Aires, capital do Vice-reinado do Rio de la Plata, território que pertencia à Espanha, organizando-se uma nova forma de governo com a Primeira Junta. O objetivo da insurreição era cortar as relações com a metrópole aproveitando a circunstância que o rei Fernando VII tinha fugido de Madri ante o avanço do exército de Napoleão Bonaparte no território espanhol. Castelli faz parte do grupo revolucionário mais radicalizado que, junto com Mariano Moreno, secretário da Primeira Junta, e Monteagudo, queriam levar a cabo uma Revolução sob a inspiração dos iluministas franceses. Essa identificação fez com que os membros do grupo foram chamados de jacobinos; protagonistas de um momento histórico de quebra institucional, sonharam com modificar a sociedade colonial baseada na exploração sobre tudo dos índios, implementando os princípios de igualdade e de liberdade. Castelli foi designado representante da Primeira Junta na Expedição Libertadora ao Alto Perú que em 1810 se dirigiu desde Buenos Aires ao Norte dos territórios do Vice-reinado para enfrentar as tropas leais à Monarquia espanhola. Divergências ideológicas com membros da Junta provocaram seu afastamento do exército; obrigado a voltar a Buenos Aires é submetido a juízo. O romance começa justamente aludindo a esse momento.
O Conselheiro e Castelli, além de pertencerem os dois ao bando dos derrotados segundo informa a versão oficial da História, eles têm outro traço em comum, os dois perseguiam um sonho, criar uma comunidade ou organizar um país onde os valores humanos estivessem por cima de tudo, eles sonharam com uma grande utopia ora marcada pelo fim da propriedade privada e baseada nos bens comuns, ora marcada pela liberdade de todos os cidadãos.
Os romances abordados se escrevem desde uma memória que, a partir do resgate do Conselheiro e de Castelli, homens históricos, elabora seus personagens ficcionais que se contrapõem às imagens criadas pelos discursos oficiais. Trás a Casca encontra-se o livro de Euclides da Cunha Os sertões, relato da derrota do Conselheiro. Por sua vez, a Revolução se entretece com citações textuais do juízo seguido a Castelli, isto é com as incriminações feitas em sua contra.
No desfecho do livro Os Sertões, Euclides conta sinteticamente a queda do arraial de Canudos assim como a maneira em que é achado o cadáver do Conselheiro. Esse final da história de Canudos, que através da descrição de Euclides passa para a História com h maiúsculo, é o ponto de partida do romance A casca da serpente de José Veiga. O escritor imagina que o Conselheiro não morre no ataque ao arraial e ao ser só ferido consegue fugir com a ajuda de um grupo de jagunços. Começa um relato alternativo, desenvolve-se uma outra história possível que vai contar o que poderia ter acontecido se o Conselheiro não tivesse morrido como o conta a versão oficial.
Aquele corpo encontrado e identificado como o do Conselheiro não é mais que uma armadilha concebida para enganar os militares. O corpo achado é o de uma outra pessoa:
Para fazer crer aos federais que o Conselheiro havia morrido... tiveram de arranjar um cadáver da mesma estatura e compleição que ele... O cadáver foi vestido de novo com um camisolão de zuarte do Conselheiro e reenterrado em um casebre da periferia. (p.6)
No começo do romance, Veiga cita várias vezes textualmente o texto de Euclides para infiltrar sua outra leitura da história através dos interstícios, das fendas que a Historia oficial oferece para quem sabe descobri-las.
O romance A casca da serpente vai construir o personagem do Conselheiro como contrafigura daquela apresentada n'Os sertões fazendo uma inversão paródica. Como nos lembra Linda Hutcheon, a paródia é uma reapropriação de elementos do passado com uma distância crítica o que possibilita salientar, de maneira irônica a maioria das vezes, as marcas das diferenças. O termo paródia não tem que ser pensado como degradação do original ou imitação com o intuito de ridicularizar, neste caso o Conselheiro segundo a imagem criada em Os sertões, más como inversão, às vezes cômica, que procura apresentar um outro lado possível dos acontecimentos.
O romance La revolución es un sueño eterno se constitui a partir da escrita de dois cadernos de capas vermelhas que Castelli começa a redigir quando uma realidade lhe golpeia o corpo e a alma, ele, que foi chamado de “orador da revolução” pelo seu discurso veemente, sofre de câncer na língua e não pode mais falar.
Essa perda da palavra falada funcionaria, num nível simbólico, como a privação da palavra numa outra ordem pois Castelli não tem mais um espaço público onde falar, todo mundo se afasta dele transformando-o num leproso político. Essa atitude de exílio no próprio espaço se deve às reações em contra originadas por suas idéias políticas, sobre tudo as que têm a ver com as conseqüências provocadas pela imposição da igualdade dos índios. As forças conservadoras e os proprietários das minas de ouro e prata se fizeram ouvir.
Escreve desde/sobre seu presente de leproso político e de doente terminal, desde/sobre seu passado e as ações vividas que se entretecem com as lembranças dos fatos históricos, lembranças que são muitas vezes respostas aos argumentos que foram utilizados em contra dele durante o juízo e que são citados textualmente.
Y él, Cisneros[2], el soldado que envejecía en la más atolondrada, pretenciosa e inmunda aldea de las colonias… supo que esa voz, la voz susurrante y glacial del tipo con la cara absorta como la de un poseído[3]Si la fidelidad a nuestro soberano, el rey Don Fernando VII, fue atacada procurando introducir el sistema de libertad, igualdad, fraternidad[4], era, allí, en esa noche de mayo, en esa pieza entibiada por los fuegos del hogar, el eco insano de los tambores, los códigos, las proclamas, los cañones con los que un casual aventurero corso despertaba, en Europa, a la plebe y a sus oscuros y bestiales instintos, y encendía la imaginación depredatoria de jovencitos melenudos, crispados recitadores de versos y proverbios.
Nesse parágrafo, introduzem-se entretecidos os pontos de vista de Cisneros –aristocrata e espanhol – e dos juízes de Castelli – aqueles que tinham jurado defender a Revolução – e que coincidem paradoxalmente na maneira de considerar duas questões, de um lado ambos defendem a figura do rei Fernando VII, de outro o pano de fundo da crítica tem a ver com os modelos franceses, seja Napoleão, seja a Revolução Francesa. Cisneros, desde sua posição de poder e de aristocrata, julga o gesto libertário desses homens de Maio como a reprodução do que acontecia na Europa a causa de Napoleão, chamado de aventureiro corso, utilizando o duplo sentido da palavra corso que fala duma origem: a ilha de Córsega de onde era Bonaparte, mas também o designa como o pirata, o fora da lei que incitava a massa, a plebe instintiva e os jovens sonhadores violentos. Os juízes invocam os célebres princípios arvorados em 1789.
Quanto a sua forma narrativa, A casca se apresenta como um texto que se constrói de maneira simples com um narrador que participa como testemunha dos fatos que vai relatando segundo a sua cronologia, os recuos no tempo têm a ver mais do que nada com a necessidade de contrapor os “dois” Conselheiros, na procura do efeito paródico, aquele de antes, dos Sertões com o “novo” metamorfoseado da Casca. Além disso, o discurso do narrador, marcado por traços da oralidade, se desenvolve de maneira descontraída, sem complicações.
Ao contrário dessa estrutura simples da Casca, La revolución apresenta uma construção narrativa complexa. De um lado temos o Castelli que escreve os dois cadernos vermelhos, o primeiro deles, começo mesmo do romance, se inicia assim:
Escribo: un tumor me pudre la lengua. Y el tumor que la pudre me asesina con la perversa lentitud de un verdugo de pesadilla p.15
Mas esse Castelli vai se converter no observador e juiz dele mesmo ao voltar o olhar para trás e se ver como um ator no cenário da história que ele viveu, às vezes transformado numa marionete dos acontecimentos que o ultrapassaram:
Yo, ¿quién soy?
¿Soy un actor que mudo, mira, desde el escenario, al público que lo contempla, y se rie?…
¿Soy un actor que se ríe de él y de las vidas que vivió: que se ríe de la historia –un escenario tan irreal como el que él, ahora, ocupa- y de los hombres que lo cruzan, de los papeles que encarnan y de los que renuncian a encarnar?…p.26
Mas o texto apresenta um outro nível na narração pois outro Castelli observa o ator e o Castelli escritor dos cadernos:
Y en el escenario, cuya luz se extingue, el actor escribe: la revolución es un sueño eterno. Castelli escribe: es hora de comer mi ración de zapallo pisado. p. 49
num confronto entre o ator/homem político, revolucionário que participou num momento chave do país, que construiu um sonho baseado na justiça e o outro, o Castelli/homem que ficou só frente aos seus juízes e à sociedade toda – o grupo jacobino de Maio já estava dispersado – homem doente e mudo que escreve porque sabe que vai morrer, mas que escreve sabendo também que a sua palavra só será para o futuro.
A meu ver o romance apresenta um Castelli que não é um herói nem também não um anti-herói, trata-se mais do que nada de construir um personagem com suas convicções e claudicações, suas certezas e seus temores, em suma profundamente humano.
Essa “humanização” do personagem se encontra também na Casca. Ao “fanático foragido” "gnóstico bronco", "caso notável de degenerescência intelectual" apresentado por Euclides, Veiga contrapõe um Conselheiro descrito com traços que salientam a precariedade da natureza humana. No começo ele está doente, e o “fanático bronco” devem simplesmente "o velho":
Então começaram a amansar o lugar para viverem enquanto o Conselheiro se fortalecia para traçar o futuro. Felizmente o velho tinha bom tecido...p.24
Se para Euclides o Conselheiro era um "dominador incondicional" que se irritava "ante a menor contrariedade", Veiga retoma essa característica salientando a mudança a partir da oposição estabelecida entre o antes e o agora.
Antes ele resolvia tudo sozinho e comunicava a decisão aos seguidores: agora falava no plural, nós revolvemos depois para onde ir. p.17
Vamos acabar com a praxe antiga de uma pessoa só, por mais chefe que for, baixar decisões para um grupo. Por causa dessa praxe muita coisa andou torta em Canudos. p.46
As transformações da conduta do Conselheiro vão acompanhadas de mudanças físicas e da vestimenta, inclusive muda a forma do tratamento com seus seguidores e, o que é mais importante ainda, muda o seu nome, começa a ser chamado de "tio Antônio".
Primeiro, que não convinha ele andar de camisolão de zuarte, como em Canudos... E resolveu que já era tempo de ceifar aquela barba, que não tinha mais razões de ser, já que o dono dela, para todos os efeitos, estava enterrado em Canudos. Vida nova, cara e estampa novas. p.89
Um ponto de encontro entre o Conselheiro e Castelli é que ambos tinham um projeto que, em maior o menor medida, involucrava formas de convívio, em última análise eram projetos políticos embora o Conselheiro imaginava uma comunidade autônoma organizada segundo a religião e Castelli sonhava com um projeto que tinha a ver com o país todo. Mais quais as diferenças apresentadas nos textos? Em La Revolución a narração trabalha na tensão produzida no confronto entre um projeto e seu fracasso, projeto de país baseado nos princípios iluministas, como já foi falado, que era visto, nesse momento como possível e realizável; tensão entre o absurdo das acusações feitas contra Castelli e os gestos temerários que ele e seus camaradas realizaram porque acreditavam nesse projeto, entre esse Castelli, que vai ao Norte contando com o apoio da Junta e sua solidão no momento do juízo:
Hágase constar, donde sea, que el acusado proclamó, desde las gradas de Kalassassaya, en Tiahuanaco, la libertad del indio, cumpliendo órdenes que recibió de la Primera Junta. Hágase constar que los señores mineros y los señores encomenderos por merced real, que cobran tributo de por vida a los indios…deploraron la abrupta manumisión del indio p.38
Seu fracasso é provocado pelas reações negativas dos proprietários mineiros e os latifundiários que consideraram seus direitos atacados pela liberdade outorgada aos índios por Castelli .
Assinalei no começo deste trabalho o traço comum entre Castelli e o Conselheiro, ambos queriam realizar um sonho semelhante. Contudo, os romances pareceriam acabar de maneira divergente. Na Casca, que parte da derrota de Canudos, apresenta o sucesso atingido pelo novo arraial chefiado pelo “novo” Conselheiro. Durante longos anos a comunidade consegue viver em paz compartilhando tudo, inclusive a propriedade é coletiva, até parece tratar-se de uma bela utopia que virou realidade. Digamos que é uma história bem sucedida não como a história da derrota de Castelli.
Mas no desfecho, em parágrafos que funcionam como uma coda, os romances se assemelham num outro ponto. Como já disse, ambos contam histórias passadas, A casca começa no momento em que Canudos é derrotado em 1897 ao passo que La revolución se situa em 1811. No final os dois romances introduzem anacronismos significativos pois na Casca, o narrador, contemporâneo dos fatos acontecidos no final do século 19 se desloca abruptamente para 1965 contando como a "Concorrência de Itatimundé", tal o nome da comunidade do novo Canudos, foi destruído:
Se daquele sonho e daquele esforço hoje só restam ruínas, isso não significa que o sonho fosse absurdo. Ele deu tão certo que precisou ser demolida à força, como fora Canudos setenta anos antes... E a terra...é agora depósito de lixo atômico administrado por uma indústria química com sede fictícia no principado de Mônaco. p.155
A história virtual elaborada por Veiga, que se constrói como uma inversão paródica da figura histórica canonizada do Conselheiro, ao se deslocar para a contemporaneidade, olha para atrás e para o presente avaliando a possibilidade, negativa evidentemente, para o diferente de sobreviver numa sociedade que quer apagar qualquer divergência que assinale suas falências. E a paisagem desenhada em poucos traços se impõe no primeiro momento como conclusão desencantada. Mas poderíamos pensar também que se uma nova Canudos se deu, uma outra ainda pode nascer, numa ciclicidade que contem ela mesma o duplo gesto: de afirmação das diferentes realizações dos sonhos mas também as suas derrotas para o ciclo poder existir na repetição.
Em La revolución es un sueño eterno, acrescentado no final dos cadernos de Castelli, ajuntam-se biografias de alguns de seus amigos, segundo esclarece uma nota da editora. A primeira dessas biografias, de um antigo bolchevista preso nos campos de concentração de Stalin, introduz uma quebra temporal respeito do relato de Castelli situado no começo do século XIX, instalando assim o tema da Revolução como projeto e como sonho no século XX. O texto, ao colocar no primeiro plano as analogias dos destinos de Castelli e do russo, põe em cena a questão da revolução como uma idéia que volta, como fala o título do livro, pois é um sonho eterno, isto é, ao ser sonho, não tem uma realização pelo menos total mas pelo fato de ser eterno ele está sempre presente e disponível para indivíduos como Castelli ou o bolchevique dispostos a sonhar/viver com/por ele.
Referências Bibliográficas:
RIVERA, Andrés. La revolución es un sueño eterno. Buenos Aires: Alfaguara, 1997.
VEIGA, José. A casca da serpente, Rio de Janeiro: Ed. Bertrand, 1989.
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo, Rio de Janeiro: Imago, 1991.
CUNHA, Euclides da. Os sertões, São Paulo: Ed. Brasiliense, 1985.